sexta-feira, 29 de março de 2013

a morte, surda, caminha ao meu lado

era um peixinho, Bining, não me lembro de que raça ou tipo. vivia numa garrafa d'água bem bonita, ao lado da tevê da sala. por algum motivo desses que não sabemos quando crianças, morreu. eu devia ter uns oito ou nove anos de idade. a imagem do peixe boiando, já em algum estágio de decomposição, naquela garrafa, me assombrava. me assombrou durante algum tempo. era uma mistura de ânsia de vômito, culpa, nojo.

minha mãe leu pra mim, na ocasião, "A Mulher Que Matou os Peixes", da Clarice. um dos livros de que mais gosto, até hoje.

um ano antes disso meu avô morrera. curioso é que minha reação foi mais forte pelo peixe, do que pelo avô. acho que o avô não era culpa minha; o peixe, de alguma maneira, era. minha irresponsabilidade custou a vida do Bining, ou pelo menos era isso que eu achava. o avô não era tão próximo, e eu era bem pequena. o velório do meu avô era um evento a ser comentado na roda de conversa, segunda-feira, na escola, e não ia muito além. o corpo humano preparado para o velório também é mais limpo, arrumado; o peixe já estava em decomposição. credo.

eu tinha um professora que perguntava "está pensando na morte da bezerra?" quando alguém não prestava muita atenção na aula. fui à escola, depois do enterro, querendo que ela me fizesse a pergunta, para responder que não, que estava pensando na morte do meu avô. e não estava. me distraí e, sem querer, prestei atenção demais na aula. droga. genética cê-dê-éfe é foda.

depois do meu avô, depois do peixe, fiquei alguns anos sem trombar com ela.

mas sabem que a morte é como a vida, e quanto mais a gente vive, mais a gente tromba com ela; aquela época em que precisamos lidar com a morte cada vez mais - porque deixamos de ser tão protegidos, e porque as pessoas que conhecemos só fazem envelhecer (e viver é se ir morrendo, não é?) - é também quando as crianças de nossa idade passam a ter filhos, e o mundo vai se repovoando de gente pra cada um que se vai.

parece bonito. e é. mas é triste também. dá saudade.

meu terceiro encontro com a morte foi dos mais dolorosos. meu melhor amigo, no segundo ano do ensino médio, num acidente imbecil em Paraty, dirigindo um carro. engraçado. doía mais antes. ano quem vem faz dez anos - dez, gente -. eu entro em sala de aula e percebo a discrepância, o degrau: nosso grupo de amigos cresceu, começou carreira, tem filhos, trabalho, prestação de casa, e ele ainda é o menino que não pôde deixar de ser. quase não dá mais pra ter saudades, porque ele não pôde fazer uma vida. ficou preso em outra época, em outra década, num universo paralelo chamado adolescência.

alguns anos depois eu já não precisava frequentar a escola, aquela escola onde ele pertencia, onde a carteira vazia me lembrava. era outra a escola agora, de gente grande, em outra cidade. minha vida era outra. mas nenhuma vida escapa à morte, e minha avó descobriu um câncer. poucos anos depois, o câncer se espalhou, não teve mais jeito, e minha avó deixou de existir em corpo, pra existir na memória. ou, como disse o raul seixas, nos seus filhos - e, no caso, netos, como eu.

desde que minha avó morreu, há seis anos, foi uma sequência razoável de encontros entre ela, a morte, e eu. ela mandou, quase sempre, nessas ocasiões, um mensageiro. esse horror chamado câncer. foi a mãe de um amigo. câncer. a mãe de outro. câncer. a avó do marido. minha outra avó. só no último mês, ela teimou em levar a mãe de uma amiga - mais câncer -, uma tia querida, e um professor.

não é uma mensagem? um sinal? que dizem os espíritas? os espíritos? por quê? por quê? por quê?

e não interessa, a bem da verdade. saber o por quê da morte não a torna menos morte; não torna a vida mais vida. essa oposição besta que fazemos ingênuos, como se duas pontas opostas de um barbante, unidas, não formassem um círculo.

talvez por isso eu tenha escolhido ser cientista, ser professora e escrever de todas as maneiras possíveis: tenho medo de não ser imortal. depois do meu avô e do meu peixe, encontrei uma frase do Dalai Lama, que talvez tenha mudado minha vida e moldado muitas de minhas escolhas. uma frase, vejam só. que coisa boba.

"compartilhar conhecimento é alcançar a imortalidade"

então, eis que eu, com medo de desaparecer, deixo todos os rastros que posso. este que vocês lêem, inclusive.

* * *



Eu sei que determinada rua que eu já passei
Não tornará a ouvir o som dos meus passos.
Tem uma revista que eu guardo há muitos anos
E que nunca mais eu vou abrir.
Cada vez que eu me despeço de uma pessoa
Pode ser que essa pessoa esteja me vendo pela última vez
A morte, surda, caminha ao meu lado
E eu não sei em que esquina ela vai me beijar

Com que rosto ela virá?
Será que ela vai deixar eu acabar o que eu tenho que fazer?
Ou será que ela vai me pegar no meio do copo de uísque?
Na música que eu deixei para compor amanhã?
Será que ela vai esperar eu apagar o cigarro no cinzeiro?
Virá antes de eu encontrar a mulher, a mulher que me foi destinada,
E que está em algum lugar me esperando
Embora eu ainda não a conheça?

Vou te encontrar vestida de cetim,
Pois em qualquer lugar esperas só por mim
E no teu beijo provar o gosto estranho
Que eu quero e não desejo,mas tenho que encontrar
Vem, mas demore a chegar.
Eu te detesto e amo morte, morte, morte
Que talvez seja o segredo desta vida
Morte, morte, morte que talvez seja o segredo desta vida

Qual será a forma da minha morte?
Uma das tantas coisas que eu não escolhi na vida.
Existem tantas... Um acidente de carro.
O coração que se recusa abater no próximo minuto,
A anestesia mal aplicada,
A vida mal vivida, a ferida mal curada, a dor já envelhecida
O câncer já espalhado e ainda escondido, ou até, quem sabe,
Um escorregão idiota, num dia de sol, a cabeça no meio-fio...

Oh morte, tu que és tão forte,
Que matas o gato, o rato e o homem.
Vista-se com a tua mais bela roupa quando vieres me buscar
Que meu corpo seja cremado e que minhas cinzas alimentem a erva
E que a erva alimente outro homem como eu
Porque eu continuarei neste homem,
Nos meus filhos, na palavra rude
Que eu disse para alguém que não gostava
E até no uísque que eu não terminei de beber aquela noite...

Vou te encontrar vestida de cetim,
Pois em qualquer lugar esperas só por mim
E no teu beijo provar o gosto estranho que eu quero e não desejo,mas tenho que encontrar
Vem, mas demore a chegar.
Eu te detesto e amo morte, morte, morte
Que talvez seja o segredo desta vida
Morte, morte, morte que talvez seja o segredo desta vida

sábado, 16 de março de 2013

quem você quer ser?

me lembro de ser adolescente; me lembro duas vezes por semana, às vezes três, quando entro em sala de aula. cada sala tem mais ou menos sessenta carinhas, rostinhos, curiosos, cansados, desajustados, esperando alguma coisa de mim. esperando o quê, exatamente, eu não sei. achei que sabia, mas agora não sei.

enquanto eu falo de marx - ah, marx, que nos deixa tão fascinados na adolescência, sem nem sabermos muito bem o por quê -, ou explico que era contra as cotas raciais quando estudante branca de ensino médio privado na capital-ó-grandiosa-paulicéia-do-estado e que mudei de opinião por meio da sociologia; enquanto falo da ciência e mostro que a sociologia serve (e como serve) até pra quem quer ser engenheiro; enquanto isso, enquanto aquilo;

eu lembro.

lembro que o mundo era só possibilidade, todinho ele. lembro que ainda é, na verdade, só que eu encontrei as possibilidades que eu queria pra mim e decidi, deliberadamente, abandonar as demais. ao menos por enquanto.

lembro de admirar os modernistas, tanto, tanto. lembro de, no início da graduação, achar massa a ideia de conviver com artistas. quem sabe eu mesma poderia ser escritora? o que seria de nós, afinal?

é gostoso agora, anos mais tarde, me descobrir assim; entre amigos e amigas que escrevem, que lidam com arte, com estética, com pensamento, com texto. e descobrir a beleza daqueles que lidam com outras coisas: arquitetura, engenharia, códigos de programação, operação de computadores do tamanho de uma sala.

lembro, olhando meus alunos, que as possibilidades que eu achava tantas não eram nem a quarta parte do que viriam a ser. o mundo é mesmo um troço incrível.

terça-feira, 12 de março de 2013

a casa abandonada

era uma casa, muito engraçada; só que não.

sabem quando a vida chama loucamente? quando a urgência é tanta pra tudo que a gente esquece das urgências urgentes de antes? pois sim. foi isso que me aconteceu. aconteceu a preguiça de montar um móvel todinho do zero, de novo, porque era o único tempinho que eu teria livre, nos últimos dias dos últimos meses. a furadeira que teve que esperar mais um pouquinho. mas o que era, afinal, mais urgente que as urgências?

era a vida. e a morte.

era o trabalho; sempre ele.

agora eu espero ansiosamente o final de semana, quando provavelmente os planos de casa entram nos eixos. prateleiras, instrumentos musicais pendurados nas paredes, quem sabe até quadros num futuro próximo. quem sabe.

por enquanto sigo na agonia de entregar tudo, de não ter férias.
ah, que eu ando precisando.

sábado, 16 de fevereiro de 2013

mobília, pra que te quero?


Então junto com a reforma orientada à boa convivência felina, nós decidimos fazer pequenos ajustes na casa. Serei sincera: já moramos aqui há dois anos (desde Janeiro de 2011) mas até agora nossa casa ainda tinha uma certa cara de república. Explico.

Tanto Alê (marido) quanto eu já morávamos sozinhos quando casamos. Ambos tínhamos alguns móveis, utensílios, eletrodomésticos, e muita coisa pessoal, entre livros, cadernos, documentos, agendas, CDs, DVDs, instrumentos musicias, e por aí vamos. Ao contrário do que fazem muitos casais, nós nos casamos no momento mais instável de nossas vidas até agora. O Alê estava saindo de um emprego sem saber se seria contratado em outro. Eu estava no meio do mestrado sem saber se teria bolsa e se, caso não tivesse, conseguiria algum trabalho e qual seria ele. Uma confusão.

Disso decorre que nossa perspectiva de ficar nessa casa era incerta. Não sabíamos se mudaríamos pra São Paulo, por exemplo, em algum momento daquele ano, no ano seguinte... Ou se ficaríamos por Campinas e, caso ficássemos, se o bairro onde moramos continuaria sendo uma boa opção em termos de rotina, recursos, preço do aluguel, etc. Quer dizer, não tínhamos muita previsão de nada.

No final de 2012, porém, tudo mudou de figura. Profissionalmente ambos nos encontramos (viva!), e descolamos oportunidades suficientemente estáveis. Isso se confirmou no início de 2013. Foi então que partimos para os planos com a nossa casa: no momento, ela é a melhor opção possível em termos de localização, custo-benefício, etc. O problema eram os bichanos e o acesso deles à rua, como expliquei aqui. Investimos um pouco para resolver isso e, pronto, agora escolhemos de fato ficar por aqui.

Bom, como escolhemos ficar por aqui, percebemos que algumas coisas teriam que mudar. Móveis herdados de repúblicas, por exemplo, precisavam dar lugar a coisas mais ajeitadinhas. O território dos gatos teria de crescer verticalmente. Decidimos trocar o filtro de barro por um gelador elétrico de água mineral, porque tomamos realmente muita água (os dois trabalhamos boa parte da semana em casa). Decidimos pedir para a faxineira vir apenas a cada 15 dias, em vez de semanalmente, ajeitando uma nova divisão de tarefas que fosse possível para o nosso dia-a-dia. Tantas mudanças! :)

A única coisa que eu faria diferente, talvez, teria sido comprar móveis nas lojas físicas em vez de comprá-los online. O problema não é ver o móvel ou não, já que adquirimos recentemente nossa primeira trena (coisa de adulto, hein?). O problema foi que a compra online não inclui serviço de montagem. E, olha, a última vez que eu lembro de me sentir tão intelectualmente inferior foi na primeira aula de matemática numa escola em que eu acabara de chegar, na oitava série. É um verdadeiro quebra-cabeça. No fim montamos seguindo o croqui quando era possível, mas sobraram várias peças que, esperamos, não sejam tão fundamentais assim.

[Mas vejam, ficou bonitinho, até! Difícil agora, depois desse rack, é animar pra montar o balcão de cozinha. Aiai. Enquanto isso, a casa vai mudando, ficando com cara de casa, e vamos nos apropriando dela. Êba. :) ]

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

o curso é "muito teórico"?

Uma pessoa que conheço prestou vestibular e foi aprovada nas três universidades estaduais paulistas e em uma universidade privada de ponta no Rio de Janeiro. Em dúvida sobre o que escolher, me fez algumas perguntas sobre a Unicamp. Como é o bairro? Quanto custa o aluguel aí perto? Como encontro vagas em república? Como é a estrutura da universidade? Etc. etc. etc. Fomos conversando, até que ela chegou numa pergunta que já ouvi muitas, muitas vezes (e que provavelmente, antes de entrar na universidade, também fiz outras tantas): o curso não é muito "teórico", pouco voltado "ao mercado de trabalho"?

Hm. Interessante. Me lembrei de quando eu mesma pensava assim, opondo essas duas coisas que, na prática, não são nada opostas.

Eu poderia discorrer aqui sobre todo um mercado de trabalho voltado a pesquisadores e cientistas, que também é mercado de trabalho. Mas, sejamos legais, eu entendi o que minha conhecida quis dizer. Ela queria saber do mercado de trabalho corporativo. Ela queria saber se a formação que ela receberia na Unicamp seria adequada ao trabalho técnico ou administrativo que ela pretende exercer em empresas.

Me pergunto de onde vem essa ideia nossa, no senso comum, de que a formação com uma base teórica forte não é adequada ao mercado corporativo. Basta observar as seleções de quadros profissionais em grandes empresas, como os processos para trainees. Em geral as pessoas com diplomas de universidades que se concentram sobre teoria e pesquisa é que são selecionadas. Isso é resultado de uma forma de pensar muito simples e muito lógica dos grandes empregadores: a técnica pode ser aprendida em treinamento; a teoria é muito mais custosa. Além disso, muitas vezes sem a base teórica sólida, o profissional sequer consegue executar a parte técnica e administrativa, a não ser que seja um apertador de botões ou algo que o valha - mas não imagino que seja essa a ambição dessa colega (e não desmereço, também, a atuação de apertadores de botões).

Por esse motivo, aviso aos que têm essa inquietação: aproveitem a teoria que está sendo trabalhada na universidade; depois você terá a vida inteira pra aperfeiçoar a técnica.

;)

sábado, 9 de fevereiro de 2013

Dissertação em mãos... da banca!

Eis que termino a dissertação. Uma verdadeira jornada. Me vejo com um calhamaço - ou melhor, dois - de 200 páginas na fila do correio. Posto um sedex pra cada membro da minha banca e torço pra chegar logo. Sou toda ansiedade. Esses dias foram tensos.

Tensos porque precisava terminar tudo. Tensos porque, ao mesmo tempo, começaram as aulas numa escola, fui contratada em outra e começaram as aulas nessa segunda. Gente. Cêis não têm noção. Além disso, tenho feito um trabalho com livros didáticos de sociologia. Imaginem como eu estava. A ponto de ter uma conversa com meu marido, pedindo muita paciência comigo nesses dias.

Esse é o primeiro sábado desde Dezembro que eu posso escolher, de fato, se vou trabalhar um pouco ou não.

(e escolhi que não, claro; ando precisando)

Agora é a espera. Amigos, parentes, conhecidos e conhecidas, que já estão com o arquivo em seus computadores ou caixas de email, talvez em breve mandem comentários. Observações. Por enquanto só ouvi elogios aos agradecimentos que escrevi. Eles são importantes e fiquei feliz. Mas ficarei ainda mais contente quando alguém quiser discutir meus cálculos, interpretações gráficas, entrevistas de pesquisa. Porque foram infinitamente mais trabalhosos. Demorei três anos para fazê-los, sabem.

É essa minha ansiedade que me deixa meio amarga. Mas meio doce. Esperando. Torcendo. Querendo ver, mas do que uma aprovação, onde é que eu errei. Quero saber qual a falha que não vejo. Quero saber onde dava pra ter sido melhor. O processo é esse: surra no ego, que se recupera, calejadinho, e vai ficando mais forte (para o azar de vocês, meu povo).

Eu já achei que queria ser a pessoa mais inteligente do mundo. Hoje eu penso que só um pouco mais inteligente, por vez, já está bom.

Vejamos como me saio.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

acesso à rua e a cerca mágica

Embora para muita gente esta não seja sequer uma questão a ser discutida, eu entrei em conflito inúmeras vezes sobre restringir o acesso de meus gatos à rua ou não. Vale dizer que eu moro num bairro com bastante áreas verdes, praticamente inteiro de casas térreas e alguns sobrados, numa rua em que passam poucos carros. Quando mudamos para cá, optamos pelo local por causa de preço, mas também por ser uma casa e não um apartamento. Eu confesso que não gostava da ideia de gato em apartamento. Sempre tive animais em casas e percebia como eles amavam o espaço, os quintais, etc. Me apertava o peito pensar em gatinhos fechados num apê. Só que.

Há dois anos, quando mudamos para cá, tínhamos uma gata, a Mafalda, e um de seus filhotes, o Hobbes. Nestes dois anos, outros 12 gatos passaram por aqui. Isso mesmo: em dois anos foram 14 gatos. Catorze. Destes catorze, 2 foram roubados. A Mafalda foi envenenada. A Papaguena apanhou na rua (sim, de uma pessoa) e nunca mais saiu de casa. A Gertrude foi sequestrada (vocês nem imaginam, qualquer hora conto essa história). De 14 gatos, então, 5 sofreram na rua, 6 conseguimos achar quem adotasse, 2 nós adotamos temporariamente (Basquiat e Ganache) porque foram abandonados, e apenas o Berlioz, em 14 gatos, nunca teve problemas sérios em relação à rua. Ainda.

Quando vejo máquinas operando nos terrenos baldios, em frente à minha casa, tenho medo. Quando vejo morcegos meio tontos, de dia, voando pelas mangueiras, tenho medo. Às vezes escutamos na rua algum gato gritando de medo. Às vezes escutamos pessoas assustando gatos na rua de baixo. Uma vez o Alê viu, voltando do ponto de ônibus, uma molecada em um carro ~brincando~ de fingir que iam atropelar nossa gata, acelerando em cima dela. No inverno, já saímos de madrugada procurando um dos nossos gatos, com medo de que eles dormissem no motor de alguém e acordassem tarde demais.

Ao mesmo tempo, a forma como é o nosso quintal, no começo, representava um desafio. Não queríamos (e sairia bem caro) cobrir o quintal inteiro com redes de proteção. Os muros são fáceis de serem alcançados, então mesmo que botássemos tela no portão, ou um portão no corredor (moramos numa casa de fundos), eles ainda conseguiriam sair. Até que, um belo dia, começamos a assistir um programa de TV chamado "My Cat From Hell".

Neste programa, o host, que é especialista em comportamento felino, Jackson Galaxy, faz as vezes de supernanny e visita a casa das pessoas pra ajudá-las a resolver problemas com seus bichanos. Tem de tudo: problemas de adaptação de uns gatos com outros, gatos com ciúmes de namoradxs, gente que bateu no gato e o gato se revoltou, gato mijando pela casa toda, ___________ [inclua aqui seu problema com gatos]. Pois num dos casos, o gato saía de casa e passeava na casa dos vizinhos. Como ele era ~meio~ agressivo, não era uma coisa lá muito bacana. A família não queria (ou não podia) telar um certo muro. Então Galaxy sugeriu uma coisa da qual eu nunca tinha ouvido falar: uma cerca a 45º em cima do muro. Nos EUA eles chamam isso de "cat-proof fence", ou "cerca à prova de gato".

Parece que, quando tem uma cerca a 45º em cima de um muro, mureta, etc., os bichanos olham aquilo de baixo e têm a impressão de que vai cair sobre eles. Aí se afastam e não sobem. Parece mágica; vejam a partir de 04'07'':




Era essa a nossa solução!

O primeiro passo foi tentar ver como contratar um serviço pra fazer isso no muro todo aqui de casa. A primeira empresa que contatei não faria isto, apenas cobriria o quintal todo, por um preço absurdo e demoraria pelo menos 30 dias. Contatei uma segunda. Daí que o serviço da segunda empresa tem a assessoria de um serralheiro, e assim finalmente conseguimos um orçamento bom, num serviço exatamente como queremos e... pra hoje! Sim, o prestador de serviço já está aqui em casa, fazendo os primeiros furos, e o serralheiro deve vir esta semana ou na próxima. Viva!

É claro que o lance de restringir os bichanos aqui em casa tem alguns lados negativos, como precisarmos de 4 a 5 caixas de areia, com cuidados diários com cada uma delas. Assim como aumentar o território verticalmente (falei sobre isso, aqui). 

Mas meus pitoquinhos estarão seguros. Nada de sair de madrugada balançando potinho de ração depois de ouvir gatos berrando na rua. Tem recompensa melhor que essa? :)

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UPDATE [do fim do dia]:

Uma parte da rede já está instalada! Agora é esperar o serralheiro fazer as estacas de metal a 45º pro moço da rede instalar no outro muro. Esse pedaço que vocês estão vendo aberto, num corredor, terá um portão, também telado,  para que os tchutchucos realmente não consigam sair. Vamos que vamos!

Ficou assim, até agora.
Aí na foto da esquerda mostra direitinho onde vai encaixar um portão.
Bichanos seguros = <3